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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Para criar o hábito de ler

Vez ou outra, quando informo minha atividade favorita – ler –, recebo uns olhares enviesados que contêm uma mistura nem sempre cordial de descrença e cautela. Quem não aprecia sentar calmamente com um livro nas mãos e em frente ao nariz, com a atenção voltada para este, alega, na maioria das vezes, falta de paciência. E, depois que ouço algo do tipo, é minha vez de emanar desconfiança e receio – em relação a quem justificou, e não à justificativa.

É claro que acredito na alegação. Ler, como quase tudo na vida, é uma questão de hábito. Portanto, é necessário treinar e adaptar os sentidos e o cérebro para uma atividade que, a priori, pode ser considerada monótona e pouco divertida. É bom lembrar que, quando não temos intimidade com o que quer que seja, sempre nos parece complicadíssimo, e, portanto, pouco agradável, enfrentar uma situação. No caso da leitura, com tempo e com a continuidade da ação, como bíceps trabalhados na musculação que enrijecem e podem aguentar mais peso, o vocabulário aumenta, a capacidade de interpretação de textos é beneficiada, a imaginação ganha novas ferramentas, a concentração vem fácil e mais sólida. E aí, sem que tenhamos nos dado conta, estamos lendo sem esforço, e apreciando uma obra e envolvidos com as personagens e o enredo, e não precisamos fabricar um frágil foco e nem obrigar os neurônios a permanecer voltados para as palavras como se se postassem diante de um general muitíssimo desagradável. O começo, lógico, é difícil. Pode-se dizer que funciona como uma espécie de preparação. E vai exigir perseverança. Nessa questão e em várias outras, os primeiros passos são, sim, os mais complicados.

Não é necessário pontuar com detalhes minuciosos a importância da leitura. Todo mundo sabe, ainda que uns finjam ignorar e desprezar, que livros, revistas e jornais nos presenteiam com cultura, melhoram nossa escrita, abrem horizontes e nos contam histórias antigas que, se não fosse pela palavras, nem teriam acontecido ou seriam esquecidas; além disso, ensinam a importância crucial de questionar, ponderar e duvidar.

Conheço quem tenha algumas leituras, ainda que poucas, no currículo, e, em contrapartida, quem jamais lê coisa alguma. Mesmo aí a diferença entre ambos é abissal, gritante e desanimadora.

Quem assumiu a importância da leitura e quer começar a ler deve, em primeiro lugar, aceitar a referida falta de paciência como um obstáculo real a ser transposto, e não como uma desculpa qualquer que se dá aos outros e que vem geralmente acompanhada de um sorriso amarelo e de um ar – esse sim, falso como nota de três reais – entristecido e conformado.

"Oh, não tenho paciência para os livros, pobre de mim!". Nesse caso, há duas opções igualmente dignas: não ler e parar de lamentar, e assumir-se como alguém que simplesmente não tem suficiente força de vontade ou para quem a ação de ler pouco ou nada importa, ou ir à luta.

Quem deseja alguma coisa com muita intensidade não hesita em batalhar por ela; não hesita em empregar todos os esforços e em cobrir todos os possíveis caminhos que poderão levar à conquista de um objetivo.

Quem quiser começar a ler – mesmo! – deve, em primeiro lugar, munir-se de um bom dicionário. Nada de pular palavras desconhecidas e pressupor significados. Quando se estuda uma língua estrangeira, é de praxe conferir o que quer dizer cada um dos vocábulos; é natural que o mesmo interesse se aplique a nossa língua materna. Além de tudo, e por mais que isso seja de uma obviedade gritante, é bom salientar que vocabulário nenhum será aumentado e beneficiado sem os devidos movimentos em prol da causa. E é só com um bom arquivo mental que as leituras futuras se tornarão simples e divertidas.

Em segundo lugar, e deixando de lado as revistas e os jornais, é essencial fazer boas escolhas na hora de comprar – ou de pegar emprestadas – as primeiras obras. Nada de optar pelas muito complexas. Cada um tem seu estilo, claro, e também são diferentes os patamares já atingidos. Não gostaria de desaconselhar autores, e nem de recomendar um ou outro, com base em nada. Quem quiser me pedir alguma indicação, entretanto, pode estar certo de que será com prazer que responderei.

É assim, de palavra em palavra, de frase em frase, de parágrafo em parágrafo, capítulo em capítulo, livro em livro, que se cria um hábito e, depois, um hobby. Quem se esforçar achará, no início, muito pesado segurar qualquer volume nas mãos. Mas depois fica tudo muito leve.


Camila Keh-  lhttp://www.jornalnh.com.br/site/blogs/blog.asp?canal=19&ed=365&ct=1147&esp=0&cd=304623#post1

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